AS ASAS DA IMAGINAÇÃO
Retratos do quotidiano, histórias captadas aqui e ali em pinceladas de cor. Elsa David apresenta em Junho novos trabalhos.
TEXTO DE Ana Paula Dias
RETRATO DE José Miguel Figueiredo
De histórias reais se alimenta a imaginação de Elsa David, que as transforma em imagens fortemente decorativas e com alguma dose de humor. Assim aconteceu na primeira exposição de há um ano, onde os quadros foram todos adquiridos e até surgiram pedidos para que repetisse algumas telas ou moldasse outras à medida de um desejo. O que implicaria uma outra predisposição da sua parte, porque o tempo que dedica à pintura é escasso e, por isso, encarado como um momento de prazer, libertador de rotinas e obrigações. "Não pinto a pensar nas pessoas que compram os meus quadros, até porque fiz os primeiros para mim, de uma forma quase compulsiva, sem nunca pensar em expor. Nem sinto a angústia de não ter uma ideia, ideias teria sempre, mesmo que pintasse todos os dias , até porque armazeno dentro de mim todas as situações que presencio, seja pelo lado do humor ou dos sentimentos e tenho toneladas de informação. Pinto durante o fim-de-semana ou à noite, às vezes tiro um bocado do dia, o que para mim é um luxo." Há vinte e dois anos que Elsa David, 42, faz da arquitectura a base de uma carreira bem sucedida: " A arquitectura, sendo uma profissão bastante criativa, tem uma componente técnica e práctica que não desenvolve esse lado imaginativo que é ilimitado à pintura. Gosto de fazer muitas coisas, esse é o meu problema, mas não posso fazer tudo e sempre levei muito a sério o trabalho de arquitectura." Ao longo da sua vida fez dança clássica e moderna; estudos musicais no Conservatório; teatro na Universidade Técnica de Lisboa, com Jorge Listopad, e com Antonino Solmer num outro grupo; ilustração em revistas, jornais e livros. E, desde sempre, desenhou. São esses desenhos, com traço que os colegas de liceu ainda reconhecem, que começaram a instalar-se em telas cujo número aumentava ao ponto de alguém exclamar: " Devia fazer uma exposição!" Apresentou-se na Lapa Gallery e o seu trabalho foi um sucesso: "As pessoas identificaram-se com os quadros e demonstraram paixão. É um trabalho figurativo, eu ilustro sempre uma história."
Humor e ternura misturam-se nas cerca de trinta telas que vai expor, de 2 a 21 de Junho, de novo na Lapa Gallery. Quadros de uma ou muitas histórias e que tanto se colocam juntos ou isolados, a direito ou de pernas para o ar, exigindo alguma cumplicidade, como acontece com as 'gordinhas', experimentando fatiotas e apertando o corpo para atingir uma forma mais elegante. Ou com aquelas que estão felizes com o corpo que possuem e que dele fazem ostentação. Também existe aquele coração que tem um irmão, mas que cada metade está separada no seu quadro, um reminiscente da colecção anterior, Love is in the air, onde aparecem elefantes, girafas, lagartixas. "São sempre as minhas histórias". Exclama Elsa David debruçada sobre o tema de um homem e uma mulher, cada um acompanhado por um cão ou um gato, telas que se unem para formar um casal harmonioso, ou que se juntam para assinalar o momento em que duas pessoas se cruzam, encaminhando-se já em sentido oposto. Também se faz o cruzamento dos sentidos ao recriar uma festa igual a tantas outras, entre o passar de travessas, guloseimas e bebidas circulam as sensações: " É o meu lado mais observador."
Salta-se desse lado social para um outro passional, quando entre dois casais se vislumbra o desejo pelo parceiro alheio. Nos quadros de Elsa David as cores são muito variadas, e, até por influência da ilustração, nunca abdica dos contornos a negro: "É quase um vício, mas acho que faz mais sentido. E adoro trabalhar as cores, misturá-las sempre à minha maneira a partir de cores base. "Para além da representação de uma sogra matriarca e da respectiva família - "conheço várias famílias assim" -, será também assim que olhamos os avós com aquela bonomia representada noutro quadro, um idoso ostentando "o ar de missão cumprida" e uma avozinha de olhar celestial que não pára de tricotar, até mesmo para o cão! Ou o que dizer da tela onde se pode ler caiu-me um anjo no prato da sopa? "É também a representação do meu lado infantil, embora toda a gente veja que sou muito séria, rigorosa, pontual, tenho também um lado mais cómico, de mimo. E sinto-me uma pessoa tão abençoada pela sorte..." If you start me up I never stop pertence a uma letra dos Rolling Stones, mas agora repartida em quatro telas que representam uma época de juventude, por isso faz sentido serem adquiridas em conjunto. Tal como aconteceu na anterior exposição, o ballet está presente através das três amigas um pouco desajeitadas, da bailarina rebelde, ou de outra que por saltar tão alto já lhe cresceram asinhas. Também as asas da imaginação sobrevoam "as histórias rocambolescas" que conta aos filhos todas as noites. São sempre diferentes e um dia gostaria de escrever esses exemplos de "imaginação transbordante". Os filhos, de quatro e sete anos, definem muitas vezes os temas e preferem que exista muita acção, mas que a história acabe bem. O aspecto educativo, adequado a cada um, nunca fica esquecido na mensagem de cada dia, ou porque estiveram irrequietos, ou porque precisam de elevar a auto-estima: "Procuro o que lhes faz bem, esse momento da história é sagrado e não dura mais de 20 minutos." Segundo parece, também os adultos se identificam com as suas histórias.