UMA PARÓDIA À VIDA
"A arquitecta Elsa David encontrou nas telas um espaço de liberdade, onde colocou todas as cores. Um mundo cheio de humor, embrulhado sem pretensões. Quem disse que a pintura tem de ser sisuda?"
TEXTO DE Isabel Lucas
FOTOGRAFIAS DE Victor Machado
" Todas as cores cabem no mundo de Elsa David. Como arquitecta, garante que nunca sentiu a angústia da folha branca e, da mesma forma, quando um impulso a fez passar para outra escala imagens que a habitam desde a infância, não hesitou ante o vazio da tela. "Não tenho esses medos, esses receios, eu não nasci assim". Não será um mundo absolutamente cor-de-rosa, mas é uma terra quase feliz e despretensiosa, uma paródia à vida.
Desde criança que a desenhou assim, mas só há pouco mais de um ano substituiu os blocos e os lápis de sempre e se rendeu ao acrílico para dar forma a mulheres gordas de vestidos garridos, animais de tons impossíveis e formas estranhas, artistas estridentes em palcos onde só há lugar para o aplauso, apesar de alguns terem nascido de alguma frustração. Como a de não ter ido ver os Rolling Stones a Coimbra, em Setembro. E aquele cantor lingrinhas do quadro bem podia ser Mick Jagger, mas não é de retrato que se fala, nem sequer de caricatura. Há um homem em palco e a letra da canção antiga: "You Can Start Me Up...". As imagens desfilam, iluminadas pela luz branca do Outono lisboeta que entra pelas clarabóias do atelier, lugar de trabalho e de prazer, dividido entre a arquitectura e, mais recentemente, a pintura. A primeira é dominante, embora a segunda se imponha. É o domínio da cor, espaço da total liberdade criativa. "Não sei bem como é que comecei. Foi uma coisa compulsiva, de um dia para o outro. Nunca pensei em mostrar a alguém. Pintava porque me dava gozo."
São simples as justificações para um impulso. As telas foram-se acumulando e, mentalmente, foi-lhes atribuindo destinatários: a irmã, os pais, os mais próximos. "Quando dei por mim tinha mais de trinta telas e com dimensões grandes, pintadas compulsivamente, com este universo, sempre com muita cor, com um bocadinho de humor também, ternurentos, naïfs, sem dúvida". Assim se auto-classifica uma autora que, sempre que algum amigo via um quadro seu e lho pedia, recusava a dádiva. "Não concebia a ideia de me separar daquelas imagens", reconhece. Até que o estímulo e a insistência dos outros se foi impondo e o projecto de uma exposição ganhou forma. "Quando mostrei as telas na Lapa Gallery, foram aceites de imediato. Era para data que eu quisesse, Foi muito fácil, por isso digo que sou uma protegida. Profissionalmente, as coisas são relativamente fáceis. Não são percursos de sofrimento. Se calhar é porque não sou demasiado ambiciosa."
A exposição foi marcada para Maio e vendeu mais de trinta quadros. Antes de se separar deles, fotografou-os um a um, num portfólio que folheia e serve para matar saudades, onde já haveria muito mais a acrescentar. Telas novas à espera de uma nova exposição, enquanto correm ainda os ecos da anterior. "Há pessoas que viram um quadro, não o conseguiram comprar e vêm ter comigo para fazer um igual". Recusa-se a repetir, mas não se ofende com a proposta. Explica que não seria correcto, muito menos para quem comprou o original. Aplica então à pintura a experiência de quase vinte anos enquanto arquitecta, a ouvir os gostos, a medir sensibilidades e expectativas dos outros antes de encetar o seu próprio processo criativo. Neste caso, antes de partir para uma tela que pode ser a paródia de uma anterior. Então, pinta a pensar no dono do quadro e no espaço que lhe quer destinar assumindo que se diverte com isso. "É bom, às vezes, impor alguma regras a tanta liberdade", justifica, descomplexada.
Ideias não faltam, garante. "Podia pintar um quadro todos os dias", afirma. E tudo pode funcionar como estímulo. A televisão, a letra de uma música que ouve na rádio, , os filhos - de cinco e três anos - , o espaço. "Tudo é sugestivo" e sem lugar fixo. Pode ser no estirador, na mesa de reuniões ou na mesa da sala. Basta haver tinta e tela. "E tempo", acrescenta e que não quer retirar à sua actividade principal: a arquitectura. Actualmente, está a requalificar um quarteirão no centro histórico da Lourinhã e a construir três vivendas de alguma dimensão em lugares diferentes do país. Além de conceber espaços comercias e de estar a pensar de raíz um bar para o Parque das Nações. E começa a surgir a hipótese de aliar a pintura à criação de espaços. Não se confunda com decoração de interiores, a parte que menos a estimula enquanto arquitecta. "Os clientes vão-me pedindo e talvez seja interessante pensar em imagens para determinados espaços". Afinal, o espaço está sempre implícito. "Quando comecei a pintar imaginava os meus quadros em determinados contextos", reconhece. Surpreende-se mesmo quando alguém lhe diz que tem uma tela sua na sala. "Não as imagino nesses locais. Penso nelas, sobretudo, para quartos de crianças, cozinhas, corredores, lugares de passagem. Não sei porquê . Se calhar é porque não são muito sérias". E entenda-se por isso o contrário de sisudas e não qualquer tipo de descaso. " Gosto muito da minha pintura. Reflecte aquilo que sou, a minha imaginação e criatividade. Não quer dizer que não as aplique em arquitectura, mas ali estou muito mais condicionada, e que bom que é poder fazer seja o que for sem limitações."
Outra vez em Maio, poderá haver mais. Os galeristas pressionam e os clientes também. "Um quadro quando é bom, pode ser o único de uma exposição. No meu caso, acho que tenho de ter sempre muitos. Os meus desenhos ganham com isso, pelo menos resultou bem na exposição anterior. A galeria era pequenina e tinha tantas telas que parecia uma banda desenhada. Os meus funcionam mais pela graça do conjunto. Do somatório das cores, das formas, das personagens". Até lá, faltam algumas telas e algum tempo, mas sobra imaginação.